Review of La Dolce Vita (1960) by Rui A — 18 Jul 2013
Marcello, o protagonista de «La Dolce Vita», uma das obras imortais da História do Cinema e um dos expoentes máximos do seu realizador, Federico Fellini, é um indivíduo que leva uma vida desprezível, ao pé de gente igualmente desprezível. Esta foi a ideia inicial com que fiquei da personagem-protagonista deste épico italiano de quase três horas, interpretada por Marcello Mastroianni (que viria a colaborar com Fellini em mais quatro filmes - este foi o primeiro), que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e hoje em dia é um filme amado por esse mundo fora. E fiquei com essa impressão precisamente até ao final do filme, só que fui acrescentando mais coisas, mais detalhes psicológicos ao que percecionei deste homem. Marcello é um jornalista italiano da imprensa cor-de-rosa que leva uma vida boémia e descontraída, saltitando de mulher em mulher e de lugar em lugar (desde um cabaré nas imediações de Roma, onde se encontram muitas figuras do jet-set da cidade e onde ele consegue grande parte do seu trabalho, até a uma Igreja, onde reencontra o seu amigo Steiner), mas que nunca consegue estar satisfeito consigo próprio e com a sua existência, com a sua profissão e com a sua maneira despreocupada e preguiçosa de ver tudo o que o rodeia. Com «La Dolce Vita» e com as múltiplas observações que fazemos dos ambientes, das situações, e das pessoas que se cruzam com Marcello (e da forma como ele se deixa influenciar ou não pelas mesmas), conseguimos perceber como a vida é feita de zangas e de dissabores, e que depende unica e exclusivamente de nós próprios a forma como a queremos tornar mais ou menos "doce". Ou seja, nós é que temos de decidir a nossa própria vida, e escolher quais os modelos que queremos seguir para nos tornarmos quem somos na vida quotidiana, sem nos conformarmos com tudo o que está à nossa volta e não tendo razões, como diversas personagens do filme, para viver numa fachada onde se finge ser feliz quando a vida está completamente arruinada, adocicando-a de uma forma ficcional para agradar às aparências e à opinião dos outros, a que damos demasiada importância.
Federico Fellini aproveita a complexidade de episódios e de narrativas de «La Dolce Vita» para retratar uma perspetiva de vida de uma forma que, para a época, foi completamente nova, desinibida e provocadora. Mas além de todas as filosofias e reflexões existenciais, existe uma forte componente crítica em relação à supremacia do Cinema americano em todo o Globo, com toda a história da atriz americana que chega a Roma para trabalhar num filme - tanta coisinha, tanta confusão e tanto entusiasmo por uma pessoa sem interesse algum a não ser, obviamente, a sua beleza exterior. Todo um manancial de paparazzi (termo que ficou popularizado por causa deste filme), do qual Marcello faz parte, segue incessantemente, e de uma forma quase selvagem, todos os passos da atriz e todas as coisas que ela diz, mesmo as mais insignificantes (tal como as perguntas que muitos jornalistas lhe fazem: "Usa pijama ou camisa de noite?" é uma dessas muitas pérolas). Marcello vai ter uma das suas muitas paixonetas por esta dita atriz, algo burra e ingénua, que ao viver na sua própria redoma, pensa que é o centro do Universo, e além disso, revela não ter muita cultura sobre o país e a cidade em que vai filmar (a cena em que estão dentro de um monumento histórico e ela diz: "Posso escrever o meu nome aqui?"). Mas não é só ela: os seus compinchas americanos também não são muito respeitadores do que lhes é desconhecido e quase que "destroem" a cultura italiana, em benefício das tradições e formas de vida do povo dos "states". Talvez Fellini pretendesse alertar para a forma como as pessoas olham o Cinema não como Arte e forma de expressão, mas por todo o recheio desnecessário que a ele ficou associado, muito por "culpa" dos grandes sucessos americanos exportados para os quatro cantos da Terra: o glamour, os famosos, as suas histórias de vida como pouco significado, as fofoquices que à volta deles são facilmente criados, etc. E ao seguir a atriz (e vivendo um curioso episódio na Fonte de Trevi, uma das cenas mais emblemáticas de «La Dolce Vita»), Marcello acaba por viver com ela momentos que para ele são de "viragem", pois ao cair nas ilusões do amor e/ou da paixão, para ele é como se tivesse sido atingido por um tornado que lhe mudou, momentaneamente, a sua existência e o seu papel na sociedade. É aí que pensa pela primeira vez, e de uma forma séria, que tem de mudar de vida, ao dar de caras com esta diva que lhe desperta o coração de uma maneira fulminante. Mas será que conseguirá passar das palavras aos atos? Bem, isso fica na opinião de cada um. Mas Marcello continua a deambular pelas ruas de Roma, depois de ter de se "despedir", de maneira forçada, da lindíssima (mas superficial) atriz, e aí compreendemos, a pouco e pouco, a forma como ele vive o quotidiano e a sua profissão: de uma forma desgastada, deprimida, e sem grande vontade de ir para a frente com os seus projetos. Envolve-se em muitas festas para se tornar cada vez mais deprimido e derrotado consigo mesmo. Marcello está ali, mas ao mesmo tempo é como se não estivesse em parte alguma, nem mesmo neste planeta. Está confuso ao que realmente quer na sua vida, e muda de ideias frequentemente sobre as suas ambições, os seus sonhos e os seus verdadeiros ideais de vida.
Com uma banda sonora divinal do compositor Nino Rota (um dos Grandes nomes da Música Cinematográfica: «O Padrinho» e «O Leopardo» tornaram-se imortais, em parte, por causa das partituras da sua autoria), «La Dolce Vita» mostra-nos a cidade de Roma e todas as suas figuras, todos os personagens que habitam neste universo que tanto tem de romântico e de encantador, como de triste e de depressivo. A magia da cidade é pisada pelos seus múltiplos problemas e situações, como as andanças dos paparazzi, sempre em busca de qualquer escândalo, polémica ou tragédia para meterem mais uns tostões ao bolso (a normalidade com que encaram os problemas graves e as situações que fotografam é impressionante - como no caso das crianças que "viram" a Virgem Maria, que causam o caos numa pequena localidade repleta de membros da comunicação social de vários países), mas também é ambientada por reencontros, como Marcello que está uma noite com o Pai, que mal conhece e que não deram tempo suficiente um ao outro para se poderem conhecer melhor antes. «La Dolce Vita» é um filme que é quase um guia completo para a existência humana e para todos os defeitos que o ser humano possui, as suas fraquezas e as suas frequentes desistências perante as oportunidades que lhe surgem para poder mudar a sua vida. Com uma belíssima cinematografia e um elenco de luxo, encabeçado por um espetacular Marcello Mastroianni (um dos mais icónicos atores do Cinema Italiano), «La Dolce Vita» é um filme sobre o descontentamento com a nossa própria vida e sobre o pouco que fazemos para a mudar (como diz uma música recente da banda portuguesa Virgem Suta, que passo agora a citar: "andamos furiosos/Entre dentes a resmungar/Mas quando há chance de algo mudar/Chutamos para canto/Preferimos nem lhe tocar"). Falamos, falamos, falamos, mas depois não fazemos nada e preferimos reduzir-nos à nossa "insignificância". Procuramos a felicidade, mas no final desistimos porque achamos que não passa de uma utopia. Mas podemos, ao menos, encontrar alguma dignidade e alegria para a nossa existência, para não acabarmos como Marcello, na sua desilusão permanente e constante e na forma como desiste de tudo o que sempre sonhou. Nada é impossível neste Mundo. Se quisermos e agirmos, não há impossíveis.
This review of La Dolce Vita (1960) was written by Rui A on 18 Jul 2013.
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