Review of Synecdoche, New York (2008) by Giuliana L — 01 May 2010
Nunca o homem foi tão bem explicado e de forma tão simples num filme tão complexo. â??Sinédoque, Nova Yorkâ?? (2008), primeiro longa-metragem dirigido por Charlie Kaufman â?? a mente de eterno brilho por trás dos roteiros de "Quero Ser John Malkovich" e "Adaptação" â??, retrata, enfim, o ser humano em todas as suas nuances, com projetos, arrependimentos e misérias expostas em único personagem.
Caden Cotard (Phillip Seymour Hoffman) é um diretor de teatro que entra em crise depois de ser abandonado pela mulher e, na tentativa de criar algo novo não apenas para o mundo das artes, mas para a própria vida, mergulha em um projeto grandioso: encenar no teatro cada movimento de seu cotidiano. De inspirações existencialistas, o filme vencedor de cinco prêmios no Spirit Independent Award 2009 chega ao âmago da condição de ser: o que somos de verdade, o que fazemos e por quê, aonde iremos. � o bicho homem mostrado de dentro, em suas ambições, sucessos e fracassos.
Caden é, como toda pessoa da face da Terra, um ser humano em desintegração, em degeneração, em destruição... Destruição não apenas fÃsica, de um corpo que padece e se acaba aos poucos todos os dias, mas da sua própria concepção de tempo â?? presente, passado, futuro. De tudo que se vive, apenas se tem uma única certeza: só o fim permanece, só o fim nos resta e não há nada que a miudeza do ser humano possa fazer diante do monstro dilacerante que é a vida e o universo. Não somos nada e passamos o tempo inteiro tentando encontrar um sentido, um motivo pra viver, ou ao menos para momentaneamente esquecer que a areia se esvai pela ampulheta - e que essa mesma motivação para continuar acordando todos os dias simplesmente não existe, por mais que tendemos a acreditar nela.
O filme é muito cheio de sÃmbolos, dialoga com tantas correntes filosóficas â?? existencialismo, psicanálise, pessimismo... â?? que é difÃcil entendê-lo em sua totalidade devido à enormidade de elementos que certamente ficariam perdidos em um mapeamento. Uma questão muito presente é a brincadeira frequente de Kaufman com ficção x verdade, não sendo possÃvel, em muitos momentos, estabelecer o que é e o que não é. A partir dos flertes kafkianos com o absurdo inexorável, é meio impossÃvel traçar uma história pontualmente linear porque muito também parece ser fruto da imaginação de um inventivo diretor de teatro que, querendo ou não, acaba sempre fazendo as escolhas que melhor lhe cabem (e também aos outros a seu redor) dramaticamente.
O diretor teatral interpretado por um genial Phillip Seymour Hoffman é, de fato, puro teatro. O teatro é a sua doença â?? ao longo do filme, Caden se sente eternamente enfermo, somatizando sintomas sem explicação fisiológica â??, é a peste mencionada por Antonin Artaud em "O Teatro e Seu Duplo", que também diz: "Ã? preciso um sentido da vida renovado pelo teatro, onde o homem impavidamente torna-se senhor daquilo que ainda não é e o faz nascer". Eis sua apropriação: apenas no trabalho Caden pode, enfim, dirigir a própria vida sem se sentir esmagado pelo acaso, por terceiros, pelo destino. No fim de tudo, ele está apenas interpretando seu papel no grande drama que é a vida. Ele comanda a si próprio, agindo como se não tivesse controle sobre suas ações; como se fosse, apartado de si mesmo, um diretor exigente que lhe suga as forças para que melhor faça parte do drama â?? mesmo que seja não tomando parte em nada. Parece que ele só toma as rédeas de alguma coisa quando inicia seu projeto megalomanÃaco de recriar a própria vida num palco; como se, enfim, tomasse uma atitude ativa e altiva diante da mesma. A menção obscura a respeito de sua homossexualidade também dialoga com isso, com uma noção de papel social que interpretamos â?? do que esperam que devemos cumprir quando desistimos de viver a vida em seu sentido total para vivê-la em subserviência à s obrigações que temos com o próximo.
O monólogo do funeral e ainda a explicação de Ellen sobre como Caden vivencia sua experiência de ser resumem e explicam todo o caminho que Kaufman tenta percorrer durante o filme. O sentido da vida é o sentido do mesmo: um nada em eterna desintegração. O monólogo é, aliás, uma grande crÃtica também a essa ideia da existência de Deus, de algo maior que vem nos salvar, de um deus ex machina â?? em seu sentido literal â?? que vai nos livrar de todo o torpor em que vivemos, quando qualquer coisa pode ser uma fonte de esperança, pode dar sentido pro que simplesmente não possui nenhuma coerência e nunca há de ser bom o bastante.
O curioso é que o filme leva Nova York em seu tÃtulo, mas a cidade não é propriamente retratada - há pouquÃssimas externas, por exemplo. Por isso a â??sinédoqueâ?? do tÃtulo: Nova York só aparece na ideia de parte pelo todo, sendo mostrada como o retrato do retrato da cidade encenado dentro do grande teatro de Caden. Essa afirmação da localidade, além da evidente ligação emocional com o diretor nova-iorquino, ajuda a situar os personagens em seu espaço-tempo, fornecendo ao espectador mais pistas sobre quem eles são â?? talvez numa reflexão de Kaufman sobre a distância de si próprio que os indivÃduos sentem em uma metrópole. Uma história como essa só poderia se passar em uma grande cidade, onde todos têm pouco tempo sequer para enxergar os outros, quanto mais a si mesmos.
Tecnicamente, não há muito o que falar, exceto pelas atuações â?? o elenco de sonho traz grandes nomes como Samantha Morton, Jennifer Jason Leigh e o excelente Hoffman â?? e a cenografia, que realmente leva a sério o conceito de dizer quem os personagens são e que momento estão vivendo. A casa eternamente em chamas de Hazel (Samantha Morton) é um exemplo muito claro, talvez numa ideia de representação da personagem pela ideia de fonte de vida que a luz e o calor nos dão, bem como pela noção de destruição que pode causar â?? além do fato de Hazel ser o porto seguro de Caden, o único lugar onde ele, enfim, pode sentir algo, tendo a ver talvez com o consumo abrasivo que as emoções nos causam. A fotografia é eficiente, mas bastante convencional. Não se nota muitas peculiaridades, exceto por um predomÃnio de sombras e cores fortes, especialmente nos ambientes internos, nas casas dos personagens.
A trilha sonora é um ponto frágil. Não exatamente, mas tem uma cara de "mais do mesmo". Em muitos momentos, pensei que começaria a tocar "Everybody's Gotta Learn Something", do Beck, como ouvido à exaustão em "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" (2004), filme de Michel Gondry roteirizado por Charlie Kaufman. Isso provavelmente tem a ver com a fato de a equipe do departamento de música ser praticamente a mesma nos dois filmes. E a única música não-instrumental tocada no filme, "Little Person", escrita pelo diretor em parceria com o multi-instrumentista Jon Brion, dá o ar conclusivo que o espectador precisava para ter certeza das convenções existenciais-pessimistas que os 124 minutos de filme tentaram mostrar ao espectador. Quando Deanna Storey canta "Eu sou apenas uma pequena pessoa / Uma pessoa em um mar" ou "E em algum lugar / Talvez, algum dia / Talvez, algum lugar longe daqui / Eu vou encontrar uma outra pequena pessoa / Que vai olhar pra mim e dizer / Eu te conheço / Você é quem eu estava esperando", está explicando exatamente o que eu disse no inÃcio do texto a respeito de um ser humano pequeno, esmagado diante do universo, sempre em busca de encontrar a si mesmo em outras pessoas e que só vai enfim fazê-lo na morte â?? o único momento de lucidez que de fato nos é concedido. Brilhante.
This review of Synecdoche, New York (2008) was written by Giuliana L on 01 May 2010.
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