Review of Fanny and Alexander (1982) by Matheus C — 03 Oct 2011
A primeira cena de Fanny e Alexander introduz o menino do título (Bertil Guve) a contemplar um palco em miniatura vazio. Nós, no papel de espectadores, nos encontramos em uma espécie de ponto subjetivo, observando o personagem atrás das cortinas. Com este plano, Bergman estabelece um paradoxo que percorre ao longo do filme: seria o que se desenrola na tela fruto da imaginação supressa do protagonista ou realmente parte do universo real da narrativa?
Ao início do filme, contemplamos a vida feliz levada por Alexander e sua irmã mais nova Fanny (Pernilla Allwin) em meio a sua excêntrica família burguesa. Quando o pai das crianças morre inesperadamente, sua mãe se casa com o bispo de bom nome Edvard Vergerus (Jan Malmsjö), que leva a viúva e filhos para viverem em sua isolada residência. É amplamente conhecido o fato de Fanny e Alexander ser um reflexo da própria vida do diretor sueco, e estes elementos autobiográficos se fazem acentuados a partir do momento em que o padrasto começa a mostrar suas verdadeiras cores (o pai de Bergman era um clérigo estrito). No entanto, o filme também é uma fábula a certo ponto, com Bergman trazendo a tona os aspectos mais sombrios dos contos de fadas - e, de certa forma, a sua verdadeira cerne. A trajetória de Fanny e Alexander traz reflexos de João e Maria, desde sua sedução pela bruxa malvada em pele de cordeiro até sua épica fuga e libertação (neste caso, tanto de corpo quanto mente). Enquanto Alexander atravessa o processo catártico da narrativa, Fanny atua como observadora dos atos de selvageria sofridos pelo irmão - de fato, uma continuação poderia ser produzida apenas explorando os efeitos psicológicos sofridos pela menina.
Não apenas um pastiche de estilos, Fanny e Alexander também é uma alegoria de amadurecimento através do sofrimento, da libertação dos desejos mais profundos (não importando o quão impuro eles sejam) e também uma fábula de moral. Tudo isso suportado pelo costumeiro panache visual de seu diretor.
This review of Fanny and Alexander (1982) was written by Matheus C on 03 Oct 2011.
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