Review of Angel-A (2005) by Carlos N — 09 May 2008
André é um jovem falhado e um mentiroso. De origem marroquina, vive em Paris e aí vive de pequenos esquemas. Deve dinheiro a quase todos os criminosos da cidade e está constantemente a ser ameaçado. Quando pela enésima vez lhe dão um prazo para pagar as suas dívidas e depois das últimas tentativas de ajuda se frustrarem, decide pôr termo à vida e mandar-se de uma ponte, lançando-se ao rio. Mas no derradeiro momento olha para o lado e vê que uma mulher que teve a mesma ideia. Instintivamente lança-se ao rio atrás dela para a salvar. Quando o consegue, molhado, extenuado e irritado apercebe-se de que acabou de salvar um portento de mulher: loura, 1 metro e 80 e medidas condizentes. Angela de seu nome, agradece-lhe o gesto e compromete-se a ser sua, a ajudá-lo naquilo que ele quiser. Mas o filme não irá por aí, não se preocupem?
Rapidamente Angela começa a prostituir-se para arranjar o dinheiro que André precisa para pagar aos seus cobradores. Mas cedo este se interroga sobre o passado dela mulher e a verdadeira razão pela qual ela o ajuda tão vigorosamente?
Nove anos se passaram desde a versão de `Jeanne D?arc´ de Luc Besson. Tempo esse que o cineasta francês passou a escrever e sobretudo a produzir muitos filmes de orçamento moderado e de apelo transeuropeu, com a sua produtora EuropaCorp. Agora traz-nos algo bem diferente do género tenso que o caracterizou, uma comédia romântica, bem disposta, sobre terapias comportamentais, missões (ev)angélicas, e sentimentos de culpa (mais ou menos levezinhos).
Trata-se de uma obra que trabalha muito a relação das duas personagens principais, sempre envolvidas em situações caricatas, mas fá-lo sempre de forma um pouco infrutífera. Isto porque uma das principais pechas do filme são os abundantes diálogos. Estes deixam quase sempre a desejar, para além do que muitas vezes se verem armadilhados em ratoeiras narrativas que conduzem o espectador ao puro superficialismo. A tentativa de profundidade que Besson quer dar ao filme converte-se em certos momentos numa lição mais ou menos recauchetada e terapêutica de como enfrentar a vida, sem preocupações e sempre sendo honestos para com o espelho e com os outros à nossa volta.
Outro ponto fraco é a direcção de actores que raramente acerta no tom da cena, transformando frequentemente cenas dramáticas, em ligeira diversão e viceversa, os pontos de diversão, em interacção dinâmica mas desajeitada. No par protagonista Jamel Debouzze, como André, tem um humor físico interessante enquanto herói chato e quezilento, que a modelo dinamarquesa Rie Rasmussen muito poucas vezes consegue acompanhar. Temos a nítida impressão que ela reage aos estímulos representativos do actor francês, a que a utilização da língua francesa não parece ajudar. Recorde-se que esta é apenas a segunda experiência no grande ecrã de Rie, depois de Brian de Palma a ter escolhido para Verónica em `Femme Fatale`(2002). A parecença física à ex-mulher de Besson, Milla Jovovich (embora com as devidas diferenças, entenda-se), não é um pormenor.
Agora um comentário, que quem não viu o filme se deve abster de ler. Nota de destaque para a bela Paris a preto e branco da fotografia de Thierry Arbogast, habitual colaborador do cineasta. Aquela a fazer lembrar a limpidez e pureza de tom de Berlim de Wenders em `Wings of Desire´ E a comparação não é inocente pois este ´Angel A` que conta afinal um amor impossível entre um homem quase condenado e o seu anjo da guarda, pretende situar-se algures na relação decadente e desencantada entre o humano e o divino da célebre obra de Wenders e o moralismo optimista de ´It?s a Wonderful Life` de Frank Capra. É pena que, na verdade, Besson, com um argumento da sua inteira responsabilidade, tenha ficado mais próximo do vazio romântico de `City of Angels`, a fraca actualização da obra de Wenders, assinada em 1998 por Brad Silberling.
Apesar das fragilidades que o filme não tenta esconder desde o início e dos momentos em que a psicanálise pessoal vai longe demais, no final `Angel-A` consegue divertir-nos um pouco, e toca-nos, pela grande/pequena dimensão dos seus protagonistas. A provar que o sexo dos anjos é tudo menos uma questão equívoca.
This review of Angel-A (2005) was written by Carlos N on 09 May 2008.
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