Review of The Lost Daughter (2021) by Joaogabri — 04 Jan 2022
MVP: Olivia Colman.
"Pobres criaturas que saíram da minha barriga. As partes que acho mais bonitas nelas, são as partes alheias a mim." De férias numa praia grega, a professora Leda (Colman) tem seu espaço invadido por uma família barulhentaMVP: Olivia Colman.
"Pobres criaturas que saíram da minha barriga. As partes que acho mais bonitas nelas, são as partes alheias a mim.".
De férias numa praia grega, a professora Leda (Colman) tem seu espaço invadido por uma família barulhenta e grosseira, que chega a praia aos montes e começa a se apoderar desta. Em meio aos intrusos está Nina (Dakota Johnson), uma jovem mãe que chama a atenção de Leda, que passa a ver a si mesma, quando mais jovem, na outra.
Um retrato cruel sobre a maternidade e suas mazelas, inclusive culpa. Uma adaptação impecável do livro de mesmo nome, escrito por Elena Ferrante, transformado em longa por uma Maggie Gyllenhaal que parece ter nascido para escrever e dirigir. Em sua estreia por trás das câmeras, ela escolheu um livro dificílimo, de tema delicado, mas encontrou num elenco espetacular um meio de contar essa história. Aqui, a trama está nos detalhes, nos olhos, na tensão tão palpável que dá para cortar com faca.
Infelizmente não é um filme "para qualquer um", pelo ritmo bem lento da obra, que vai crescendo até o seu clímax onde, para alguns, pode parecer que "nada acontece". Mas o filme, assim como o livro, faz várias reflexões sobre a maternidade de vários ângulos diferentes. A protagonista, Leda, é uma mãe cansada, que já criou as filhas; Nina é uma mãe jovem, com uma filha pequena e muito carente, que não desgruda dela; Callie (Dagmara Dominczyk) é cunhada de Nina e está grávida de seu primeiro filho, barriguda, e tem o ar de quem entende tudo sobre crianças, e que sabe melhor que Nina como cuidar da filha pequena dela - "essa é a sua experiência?", pergunta Leda a Callie numa cena, debochada.
E, muito distante daquela praia, nós somos apresentados a uma Leda quando mais jovem, vivida por Jessie Buckley (cuja interpretação está sobrenaturalmente conectada à Colman). Conforme acompanha Nina e sua filha na busca por uma boneca perdida (a "filha" do título, diria eu), a protagonista revisita suas lembranças de quando as próprias filhas, Bianca e Martha, eram ainda meninas, necessitadas, exigentes, o tempo todo ao lado da mãe.
Daí, entre belíssimas cenas na praia e flashbacks, "A Filha Perdida" discorre a experiência de uma mãe "desnaturada" (nas falas da própria Leda), que não conseguia se conectar realmente com as filhas e com o dever de mãe. Muito da verborragia da autora da obra original é espalhada aqui e ali entre conversas da protagonista com outros personagens, onde ela sempre se estende demais falando das filhas, falando com certa amargura, embora com elegância, sobre o rancor que as filhas têm dela e elas tem das filhas.
Existe também um tom de erotismo no filme. Leda é uma mulher beirando os 50 anos, como a própria Olivia Colman, mas que se sente bonita. Nas cenas da praia, os grandes seios da protagonista ganham algum destaque, e o corpo delicado e esculpido da Nina, vez e outra em foco, molhado, parecem pintura em determinadas cenas. As falas uma para a outra, compartilhando alguns segredos, longos olhares de compreensão... Os encontros da protagonista com os homens que trabalham na praia e na pousada (Paul Mescal e Ed Harris), os flertes aqui e ali. Sem falar dos flashbacks, quando a Leda está com seu amante, e eles exalam vontade de devorar um ao outro. Tudo isso contribui para o clima tão "úmido" que o filme tem, quase pastoso, realmente palpável do início ao fim.
E é claro que o principal "instrumento" que Gyllenhaal tem aqui, é o poder de atuação da Olivia Colman, uma das melhores - se não a melhor - atriz em atividade nos últimos anos, quando pensa nos projetos que participa e no PODER que tem em cena. Leda é sua personagem mais difícil e, não surpreendentemente, sua melhor atuação. Alguns dos pensamentos da personagem no livro, que não estão presentes no filme por falta de narração, ficam impressos no corpo da Olivia, que tem tanta habilidade para demonstrar emoções apenas com um simples olhar, que poderia interpretar uma mesinha de centro, e mesmo assim ser a mesinha de centro com mais profundidade na história do cinema.
Instigante, malicioso, voraz. "A Filha Perdida" é uma obra incrível, que faz jus ao material base. A cena final, quando a protagonista acorda de seu colapso e atende o celular, para falar com a filha com quem menos tem afinidade, e ainda assim desaba num turbilhão de alívio, é perfeita.
This review of The Lost Daughter (2021) was written by Joaogabri on 04 Jan 2022.
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