Review of The Brown Bunny (2003) by Carlos N — 11 May 2008
O início de `The Brown Bunny`, segundo filme do realizador/ produtor/actor/montador (entre outras funções) Vincent Gallo, começa em grande agitação. Bud Clay é um motociclista que vemos numa competição em New Hampshire fazendo voltas e voltas à pista. As constantes curvas, metáfora de uma desorientação vivencial do anti-herói.
Acabada a corrida, Bud inicia uma viagem para LA a fim de participar numa nova corrida. Aí as curvas dão lugar às intermináveis rectas e Gallo dá-nos um `road movie` lento construído em jeito de diário assombrado. Viagem de camioneta, com paragem em bombas de gasolinas, restaurantes chineses, lojas de animais e quartos de hotel. Um pouco excessivo. Pelo caminho vai encontrando várias mulheres com nomes de flores que o atraem, mas que são tão impetuosamente abandonadas como foram abordadas.
Apologia nihilista, exercício de narcisismo despropositado ou uma obra sobre nada de especial. Este filme tem sido muito maltratado pela crítica. É é-o com certa razão. Sobretudo porque se trata de projecto tão pessoal que não conseguimos fazer o esforço de disassociação entre os demónios interiores da personagem de Clay e os do próprio Gallo. Terá Gallo sido vítima do seu próprio protagonismo ao anunciar com ligeireza que fazia tudo nos seus filmes ou revelando detalhes mais sórdidos sobre a sua vida pessoal?
Os grandes planos da cara e do corpo de Clay, a câmara subjectiva dão-nos um mundo filtrado por um desespero existencial e amoroso. Este é oficialmente atribuído à sequência narrativa e ao mundo da ficção, mas cedo dela extravasa para uma autobiografia interior à qual Gallo não consegue escapar, nem o espectador.
A sequência final do encontro de Bud com Daisy (Chloe Sevigny) que culmina num fellatio explícito tem chocado muitas almas puritanas por esse mundo fora. Ora, numa obra de desilusão e desencanto como é o caso, este acto não surge descontextualizado. È uma materialização de um desespero latente e é o culminar de uma sequência em crescendo dramático, que acaba por ser a melhor de todo o filme.
Apesar de certos planos nos serem apresentados de forma superior, o conjunto acaba por se revelar fraco. Saí triste do cinema porque após considerável espera pelo sucessor do brilhante `Bufffalo 66`, esperava uma obra mais madura, menos agarrada ao centro da vida de Vincent Gallo, ele próprio.
This review of The Brown Bunny (2003) was written by Carlos N on 11 May 2008.
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