Review of Schindler's List (1993) by Rui A — 18 Jul 2013
«A Lista de Schindler» é um dos filmes favoritos do público: pelo rasto de humanidade, sinceridade e verdade que desperta em cada um de nós. Os "maus" são retratados como pessoas tão pouco superiores ou inferiores como qualquer ser humano, sem estereótipos a elas associados (como os que muitos filmes criaram em volta dos nazis ao longo dos anos - esquecem-se que Hitler e companhia eram pessoas com cabeça, o problema é que tinham umas ideias nada favoráveis à paz e à tolerância entre os povos), mostrando mesmo assim as atrocidades em que estiveram envolvidas mas apontando o facto de que elas foram "habituadas" a ver a morte de milhares de judeus como algo normal do seu quotidiano. Possuindo um notável rigor histórico, sendo, em parte, um documentário (tanto pelas legendas explicativas sobre certos momentos da narrativa, tanto pela forma como a ficção é filmada - uma câmara desorientada, sempre móvel, que mostra, pela forma como capta as emoções das personagens, muito do ambiente "proporcionado" pela ideologia nazi) e cuja parte ficcional (baseada numa história verídica, é preciso salientar) toca a qualquer um de nós, de uma maneira séria, inteligente e real, sem necessitar de grandes fenómenos de tecnologia, cujas cenas estão carregadas de grande simbolismo e originalidade (a cena da rapariga vestida de vermelho, por exemplo, disse-me muito mais do que muitos filmes que mostram, de uma forma encenada, as torturas feitas pelos homens de Hitler - e que se trata da possível "tomada de consciência" de Schindler -, como também a cena em que o oficial nazi toca o piano de uma habitação de judeus, enquanto os seus colegas encarregam-se de matar, de uma maneira selvagem, os "inimigos" do povo ariano). Spielberg sabia o que queria filmar e o que queria passar, em forma de testemunho, para as próximas gerações de cinéfilos (e de seres humanos em geral), tal como a forma que queria utilizar para homenagear os seus antepassados e o seu legado histórico. E, na minha opinião, o cineasta conseguiu fazer um grande filme. Tem como base uma tragédia? Sim, é verdade. Mas da tragédia, Spielberg criou poesia. E ninguém disse que isso era proibido - muito pelo contrário.
«A Lista de Schindler» não se foca tanto em relação à lista em si (que não chega a ocupar mais de um terço de toda a narrativa), criada por Oskar Schindler (o protagonista, interpretado por Liam Neeson num grande papel - ao contrário dos filmes mais recentes que tem feito) que conseguiu salvar, graças a ela, mais de um milhar de judeus. Centra-se mais na perspetiva dos judeus (e de alguns em particular, como o caso de Isaac Stern - Ben Kingsley -, que se torna o braço-direito de Schindler), de um membro do Partido Nazi que pouco se interessa pelas coisas em que está envolvido (Schindler), e de um oficial das SS (interpretado pelo grande Ralph Fiennes) com sede de poder e que faz tudo aquilo que lhe apetece. O filme mostra também, de uma forma frenética e preocupante, as maneiras que os judeus planearam para conseguirem sobreviver de todo aquele horror - e a forma como é filmado aproximou-me ainda mais os sentimentos das personagens do filme, admito. Schindler, a princípio, tem a mania das grandezas, despreocupado de toda a situação dramática de que faz parte, e que vive de uma forma boémia, glamourosa e com olhos apenas para a sustentabilidade dos seus negócios. À medida que «A Lista de Schindler» avança, a psicologia da personagem torna-se mais densa e interessante: será que tem mesmo interesse, ao longo da trama, de salvar aqueles judeus, ou apenas os contratou para que o seu esquema empresarial continue a triunfar? Só perto do final é que consegui tirar todas as dúvidas que a personagem me "colocou", e se para uns a personalidade muito variável de Schindler piora o filme, eu achei o contrário: só a torna mais humana. A não ser que alguém diga que manteve sempre a mesma opinião ao longo da vida (eu, por exemplo, ao reler as primeiras patacoadas que escrevi para este blog, há já quatro anos, e comparando ao que escrevo agora, noto que houve uma certa evolução da minha parte. E ainda bem!). Oskar Schindler não é o "salvador" do nazismo, não se trata de nenhum santinho mas sim de, a certa altura, de um homem ressentido que se apercebe o bem que pode fazer e que está ao seu alcance para salvar aquelas pessoas. Houve maiores heróis, muito maiores do que ele, como é o caso do português Aristides de Sousa Mendes. Mas sobre ele não existe um filme magnífico, tal como existe para Schindler.
Espantosamente filmado, «A Lista de Schindler» não parece, em parte, um filme de Steven Spielberg, pelo menos para a ideia habitual, mais "mainstream", que temos do seu Cinema. É um filme com muito de expressionismo alemão e do Cinema clássico americano, que nos ajuda a perceber, graças a uma estética e a um visual cinematográfico menos comum para a nossa época, mais avançada tecnologicamente, como o nosso olhar pode captar e fica mais sensibilizado pelos momentos mais simples, mas mais eficazes, do Cinema. A montagem cria momentos que, combinados entre si, mostram sequências impressionantes ao nível cronológico, fotográfico e fílmico da obra, apresentando-nos uma série de personagens com vidas absolutamente distintas, mas que nos tocam de uma maneira totalmente comum. Haja respeito por este filme! Tantas críticas negativas que algumas pessoas lhe fazem, e que tendem a levar em conta mais pequenos pormenores do que realmente interessa numa fita desta magnitude, porquê? As opiniões são sempre subjetivas mas alguns indivíduos (e volto a referir: alguns) que criticam este filme negativamente este filme, parece que pretendem levar a sua opinação a um estado de objetividade autoritária e algo "repressiva", esquecendo-se que, mesmo que não gostem, o Cinema não se faz só de Godards, Oliveiras e Kiarostamis. Não vale a pena tentarem dar ao Cinema o estatuto de "cultura de nicho", porque não é. Nenhuma arte o é nem nunca será. Porque o público, quando quer, sabe ver uma grande obra por se deixar levar pelo espírito da mesma. E penso que é este o caso de «A Lista de Schindler»: é um filme de espírito, de poesia, de toque e de emoções. É um monumento do Cinema. E ainda por cima, tendo também "aquela" excelente banda sonora...
This review of Schindler's List (1993) was written by Rui A on 18 Jul 2013.
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