Review of Nelson Freire (2003) by Luís Fernando B — 10 Aug 2014
A câmera furtiva e intimista de João Moreira Salles consegue contornar a reserva de seu introspectivo homenageado para compor um retrato sutil, caloroso e harmônico de um grande talento da música erudita.
Abolindo qualquer linha cronológica ou declaração externa (com exceção das ternas cartas redigidas por pessoas extremamente próximas ao artista), o documentário faz jus ao título sintético "Nelson Freire", dedicando-se quase que exclusivamente à figura em si do pianista, sem quaisquer rodeios ou grandes intervenções do mundo além do artista. Desse modo, acompanhamos de perto os afazeres cotidianos, os dedicados ensaios, as inúmeras apresentações pelo mundo afora e, por fim, os breves comentários de um homem altamente reservado, cuja intensa dedicação à música sinaliza, além de uma grande vocação artística, uma busca por um refúgio de um mundo com o qual ele parece sempre ter dificuldades de interagir (e a solidão subsequente a essa dificuldade é ilustrada belissimamente pelos planos que mostram Freire e seu piano isolados no palco, sob uma aura dourada de luz).
E se o documentário é repleto de apresentações - informais ou oficiais - do pianista, isso não só atesta o enorme talento deste como também aponta a relação intrínseca que a Música desenvolveu com a própria vida do artista. Nelson Freire incorpora a Música à sua existência; e apesar da atenção requerida pelo variado público e pelas dificuldades rotineiras dos ensaios, é à Música que o pianista definitivamente se entrega - independente, inclusive, das circunstâncias da apresentação. E constatar relacionamento tão profundo entre o Artista e sua Arte é sempre algo maravilhoso de se presenciar.
This review of Nelson Freire (2003) was written by Luís Fernando B on 10 Aug 2014.
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