Review of Luckiest Girl Alive (2022) by Alanpotter17 — 21 Mar 2023
Mike Barker tem alguns filmes apenas decentes (Morte ao rei, encurralados), mas este aqui considero o máximo de sua filmografia, embora há que se dizer tratar-se de um roteiro adaptado, com um edição não-linear que finalmente ajuda e muito a contar a história.
Mila Kunis consegue fazer da protagonista, Ani, uma mulher forte o suficiente para despertar o desejo masculino, assim como frágil o suficiente nos seus repentes ao relebrar do passado. E que passado!
O filme, então, se mistura em duas realidades, quando Ani vivia na escola que sofrera um massacre, e quando ela já está na vida adulta, tendo que se desdobrar para conciliar a carreira com os anseios familiares e, principalmente, com as rédeas do marido.
Ocorre que, durante o massacre na escola, os envolvidos, principalmente uma das vítimas, estava diretamente ligada a Any através de um estupro coletivo. Ela então, carrega o peso típico dos efeitos psicológicos de um estupro combinado com o olhar de vítima que a sociedade naturalmente já teria pelos rapazes, uma situação complexa e delicada, e o filme soube trabalhar isso de forma minuciosa.
Obviamente uma dose um pouco forçada foi usada aqui, como o rapaz que ficara na cadeira de rodas em decorrência ao massacre, meio que mesclando o tom entre a pobre vítima e o vilão escroto que fez do evento algo de promoção social. O mesmo se pode dizer do marido de Any, que passa a sensação de controlador o tempo inteiro. Aqui não há muitos nuances.
As cenas na escola após o massacre são de embrulhar o estômago, e por serem mais contidas, ficaram excelentes, como o olhar de desaprovação da mãe (a cena da mãe largando a mão da jovem resumiu de forma perfeita o sentimento).
O final meio "girl power" e ainda um embate feminino pode ser de torcer o nariz pela falta de sutileza, mas considerando que o machismo é estrutural e que Any conseguiu manter a amizade com a editora, ficou adequado, mostrando que o filme conversa com o público feminino e que este próprio não é unanimidade, numa sociedade em que há um machismo estrutural que não olha exatamente o gênero.
Escrevo essa crítica quando o reality show mais assistido do Brasil (BBB), transmitido pela Rede Globo de Televisão, acaba de eliminar dois participantes por importunação sexual e, pasmem, ainda há quem os defenda mesmo todo ato ter sido gravado ("ela queria", "ela estava bêbada" etc).
Então nem imagino o quanto deva ser difícil para uma mulher usar da sua palavra para expor algo que, para muitos, é pura invenção. No filme "Entre mulheres", indicado ao Oscar de 2022 e tendo faturado roteiro adaptado, fica claro que sempre será sobre considerar a palavra da mulher uma mentira, até que se prove o contrário (quando não, uma alucinação).
Aqui Mila Curtis consegue encarnar a dor, o vazio, a dúvida. Não entendo porque não ganhou mais repercussão, talvez porque junto ao filme "Ela disse" e ao já citado "Entre mulheres", tenha um peso menor. Mas conta uma história necessária em tempos em que a imagem do homem como vítima ganha contornos com um mínimo de esforço. É o tal privilégio dando as caras, e ao menos no filme há um espaço para esperança.
This review of Luckiest Girl Alive (2022) was written by Alanpotter17 on 21 Mar 2023.
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