Review of The Monuments Men (2014) by Cássio D — 30 Sep 2015
Não sou um grande entendedor de obras de arte, mas sempre nutri certo fascínio pelas qualidades intrínsecas de uma pintura. A melancolia que algumas delas podem passar, a beleza de suas pinceladas, ou simplesmente as histórias mirabolantes que fizeram com que várias delas sobrevivessem séculos e séculos como objetos valiosos de extrema adoração.
Também sou particularmente fanático por filmes de aventura que envolvem mistérios e tesouros perdidos. Assim, era apenas natural que um filme com a sinopse de Os Caçadores de Obras-Primas, que traz a história de um grupo de americanos que colocaram suas vidas em risco para, durante a 2ª Guerra Mundial, tentar salvar ou recuperar obras de arte dos nazistas, fosse bater de frente com minhas expectativas, sendo um misto direto das duas temáticas.
Entretanto, não foi bem isso que aconteceu.
Numa das primeiras sequencias do filme, vemos um alto oficial nazista analisando fria e rapidamente várias pinturas de um museu em Paris, sem dar muita atenção e nenhuma delas. Isso é basicamente o que o filme faz. Vemos quadros e esculturas eventualmente aparecendo, sem nunca realmente receber atenção o bastante, como se apenas aparecendo de relance fosse o suficiente para nos dizer o quão importante elas são.
Ou seja, apesar de falar diretamente sobre obras de arte, respeitando seus valores culturais e atribuindo a elas grande importância para a humanidade, o filme nunca dá muito enfoque sobre elas. Por sinal, o filme demora muito para começar a introduzi-las no contexto da guerra.
E isto é culpa direta de sua total falta de estrutura. O filme todo é episódio, e isso é uma forma de dizer que o espectador nunca vai realmente perceber, e mais importante, sentir, o passar do tempo. Os personagens jamais demonstram carregar qualquer bagagem de toda aquela experiência. É como se tudo tivesse acontecido em poucos dias.
Por sinal, quando é anunciado que a guerra finalmente chegou ao fim, não somente somos pegos de surpresa, pois estamos perdidos no contexto histórico, mas nem mesmo os personagens parecem particularmente animados com a notícia, o que por si só é totalmente absurdo. E sem ter a guerra para agir de vilão, o filme tenta, inutilmente, colocar os russos num tipo de 'deus ex machina' como últimos inimigos para tentar agitar a sequência final, o que apenas demonstra sua falha dramaticidade, já que, como em quase todo o filme, nunca realmente chega a demonstrar perigo aos protagonistas.
E essa falta de aprofundamento também atinge diretamente os personagens principais, que apesar de desde o início serem apresentados como se fossem figuras extremamente conhecidas, inclusive fazendo piadas e referencias como se todo mundo soubesse quem são e como se conhecem, jamais realmente os apresenta devidamente.
E isso é péssimo, pois sem se aprofundar o bastante, não conseguimos realmente criar laços emocionais com nenhum deles. E quando um acaba eventualmente morto, numa sequência que por si só é totalmente anticlimática, ninguém realmente consegue sentir o peso daquela morte. É uma tristeza por si só, claro, como toda a morte o é, mas estamos falando de um filme que se passa na 2º Guerra, período onde mortes eram contabilizadas às dezenas de milhares.
A Guerra em si, por sinal, talvez seja retratada aqui da maneira mais simplória possível, de forma que jamais realmente chegamos a temer pela vida dos personagens. E como dito, aqueles que eventualmente acabam morrendo, o fazem em sequencias que soam totalmente acidentais, e não como resultado de um conflito extremamente dramático e tenso da história mundial.
Ser anticlimático, por sinal, é um problema que o filme enfrenta em quase todas as suas principais sequencias. Nada é realmente tenso o bastante, inclusive a ridículo cena da mina terrestre, que apenas demonstra que o filme consegue falhar intensamente tanto no humor como no drama.
Mas para não dizer que tudo é errado, o que certamente parece ser, há uma sequência extremamente comovente e melancólica quando o personagem de Bill Murray escuta as vozes de sua filha e netas cantando músicas natalinas em uma gravação, ao mesmo tempo que vemos o tratamento a um soldado ferido. Chega a dar um nó na garganta.
E falando em música, a trilha sonora soa extremamente sofisticada e presente, mas falha ao ficar alternando entre tons cômicos e tons dramáticos o tempo todo, ressaltando o quão fora de equilíbrio o próprio filme se encontra. Tecnicamente, por sinal, o filme é bastante competente, entregando uma boa direção de arte de época.
Mas a maior tristeza, ao final, é constatar o quão estrelar e inutilizado é seu elenco, que vai desde George Clonney, que também dirigiu o filme e contribuiu para seu roteiro, a Matt Damon e John Goodman. Até a talentosa Cate Blanchett está aqui, num papel que a deixa desnecessariamente misteriosa, e as mudanças de humor e personalidade que ela sofre é pouco crível.
Enfim, Os Caçadores de Obras-Primas é uma bela de uma oportunidade perdida. E sendo baseado em uma história real (com muita liberdade poética envolvida), é apenas triste constatar que seus reais protagonistas mereciam homenagem melhor.
This review of The Monuments Men (2014) was written by Cássio D on 30 Sep 2015.
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