Review of The Holy Girl (2004) by Daniel R — 11 May 2008
A segunda curta metragem de Lucrécia Martel, `La Nina Santa` é uma lição de subtileza na qual, de forma esclarecedora, se vão unir dois universos canonicamente opostos: a religião e a sexualidade.
Amália (a belíssima María Alche) é uma jovem que vive com Helena (Mercedes Móran) a sua mãe divorciada, num hotel de ambas, local por onde passam inúmeras pessoas. A adolescência, vive-a de momento dividida entre decorar o catecismo e perceber qual a natureza da verdadeira vocação religiosa e os desejos inconfessáveis que o seu corpo exige. É neste período contraditório da vida de Amália que um desconhecido se pressiona contra ela na rua quando assiste a um concerto. Mais tarde vem a saber que se trata de Dr. Jano, um médico que participa num congresso de medecina que está a decorre no seu hotel. Amalia decide então confrontar secretamente o médico com o acontecido. E aqui ficamos no fio da navalha pois se de um lado a regeneração do pecado do homem parece um objectivo prosseguido pela `santa` Amália. Por outro lado, Amália é também uma pecadora, uma `Lolita` interior, apenas aflorada, que entrevemos durante a progressão da obra. É precisamente essa progressão, em muitos pontos imperceptível, que vai carregando os personagens de um peso, próximo de um estigma religioso. Carregam com um destino que é seu mas que também é simultaneamente dos demais personagens. O ponto forte está precisamente nessa progressão muito teatral das personagens e na pulsão sexual que se vai instalando entre os protagonistas. Entre Dr. Jano e Amália, entre Dr. Jano e Helena e entre a melhor amiga Josefina e Amalia. Curiosa a relação entre estas duas personagens. Por um lado melhores amigas, por outro `irmãs` mas mais uma vez fica entreaberta uma complexidade mais íntima entre as duas.
E coincidência ou não, ou não fosse o fime co-produzida pelo `El Deseo` de Pedro Almodóvar, no final a ironia dos acontecimentos vai atingir patamares tão elevados que só um final surpreendente permitiria ofuscar o óbvio. Tudo se encaminha para uma perfeita tragédia onde o clímax espera no final. Ou não.
Filme difícil mas de uma mestria inegável.
This review of The Holy Girl (2004) was written by Daniel R on 11 May 2008.
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