Review of Saraband (2003) by Victor M — 15 Sep 2013
Serão ainda uns quantos os realizadores capazes de meter as mãos numa crise familiar, mas é preciso um Bergman para encarar um apocalipse familiar sem nunca temer levar o rancor e a frieza humana até limites extremos.
"Saraband" pesa uma tonelada como drama e asfixia com carradas de angústia até a um ponto a que nenhum filme norte-americano chegaria (muito por causa de uma tradição de entretenimento algo oposta ao maior compromisso europeu com a arte).
Bergman nem sequer tem de recorrer ao terror psicológico para nos apertar a corda à volta do pescoço. Há muito pouco em "Saraband" para desviar os olhos do ecrã (esse é um efeito mais Lars Von Trier) e há tanto para que ninguém pestaneje perante o desfalecimento doloroso das peças num xadrez familiar totalmente assombrado pelo passado.
"Saraband" decorre trinta anos depois de "Scenes of a Marriage" e parece que o tempo secou os ânimos e anulou todas as hipóteses que a comédia tinha de aliviar os diálogos mais ríspidos.
"Saraband" não abre espaços para a comédia e o seu sarcasmo é demasiado ácido para enquadrar-se nessa categoria. É uma sequela, mas funciona perfeitamente como filme isolado. Liv Ullmann mostra que é muito mais uma força da natureza do que uma simples actriz e a jovem Julia Dufvenius dá indicativos de que pode ser uma boa herdeira.
Passa por elas (e por uma determinante terceira mulher ausente) a última palavra de "Saraband" e uma das últimas na obra de Bergman: só uma mulher é capaz de um amor gigantesco e incondicional enquanto dois homens travam uma guerra sem tréguas.
This review of Saraband (2003) was written by Victor M on 15 Sep 2013.
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