Review of Pirates of Silicon Valley (1999) by Cássio D — 06 Nov 2011
Em pleno ano de 2011, um mês após sua morte, é extremamente fácil portar Steve Jobs como um dos deuses da Era Digital. Há quase 5 anos foi o mesmo Jobs quem apresentou ao mundo o iPhone, dispositivo que revolucionou o modo como os smartphones se apresentam na vida do cidadão comum, fora do circuito coorporativo. E um pouco antes, há 10 anos, Jobs revolucionara o mundo ao apresentar o primeiro iPod, que popularizou os tocadores de MP3 e fixou os moldes para o consumo digital do mercado fonográfico com sua loja virtual iTunes, que até o dia de hoje, já vendeu mais de 1.5 bilhão de músicas.
De tal forma, é fascinante perceber que este filme, que tanto nos diz sobre a personalidade complexa e genial desta figura do mundo tecnológico, e envolve toda a aura de adoração em torno de sua persona, tenha sido produzido em 1999, ou seja, 2 anos antes do mundo descobrir o que seria um iPod e longínquos 8 anos antes da apresentação do primeiro iPhone.
Mas se hoje Jobs é visto mais como um visionário, um descobridor e desenvolvedor de novas tecnologias e responsável pelos produtos mais belos e desejados do mercado, naquele distante ano de 1999, o fundador da Apple era reverenciado primeiramente como um grande estrategista, um artista, uma pessoa obcecada pela beleza do designer a qualquer custo.
Abordando então um período já complexo da carreira de Steve Jobs, pegando desde os tempos pré-Apple, como universitário, até meses antes de ser demitido, em 1985, da companhia que ele próprio fundou, além de trazer rápidos recortes de seu retorno à Apple, em 1997, o filme infelizmente não teve como abordar justamente o período que mais mitificou a sua figura: os anos 2000.
Mas na sinceridade, isso não tem a menor importância. Perceber que Jobs já mantinha uma perspectiva de mago da tecnologia anos antes de trazer seus produtos mais populares, o iPod e o iPhone, revela e frisa justamente as raízes da sua condição mitológica.
Trazendo Noah Wyle como Steve Jobs, numa atuação realmente impressionante, não só pela evidente semelhança física, mas que captou os trejeitos relaxados do CEO, e Anthony Michael Hall como Bill Gates, de forma um pouco menos convincente, o filme aborda e visa condensar os momentos chaves do encontro das duas personalidades.
De um lado vemos o avançar da história de Jobs e seu amigo e co-fundador da Apple Steve Wozniak, em inspirada interpretação por parte de Joey Slotnick, e do outro a história de Gates e seus amigos Paul Allen, co-fundador da Microsoft, aqui vivido quase silenciosamente por Josh Hopkins, e Steve Ballmer, CEO da empresa, interpretado com entusiasmo por John Di Maggio, talvez mais conhecido por ser a voz do robô Bender, do desenho Futurama, de Matt Groening.
Trazendo justamente a forma como ambas as companhias, Apple e Microsoft, se formaram e se tornaram responsáveis pelas fortunas extensas de seus fundadores, o filme incontroversamente traz a Apple como resultante da verdadeira intelectualidade de seus co-fundadores, mesmo que para isso, tenha havido alguns desvios de moral no caminho, enquanto demonstra a Microsoft tendo crescido literalmente da usurpação pura do trabalho alheio, sem o menor toque de genialidade.
De igual forma, o próprio contraste entre as personalidades de Gates, um jovem extremamente nerd e um tanto desligado e adepto das altas velocidades, que não tem o menor pudor em roubar a idéia dos outros e traí-los puramente para subir na vida, e de Jobs, que visa o designer e a qualidade técnica de suas criações acima de qualquer coisa, inclusive se utilizando do bullying com pressões psicológicas fortes para extrair o máximo de seus engenheiros somente com o olhar, já deixa escancarado o lado para o qual pende o filme.
Trazendo como analogia a frase de Leonardo Da Vinci que diz que "bons artistas copiam, e grandes artistas roubam", o filme claramente ilustra a obsessão de Jobs por seus produtos, visando somente a Apple, enquanto Gates chega ao ponto de comprar um sistema operacional de um terceiro somente para cumprir um acordo da Microsoft com a IBM, além, claro, de roubar nitidamente o sistema Macintosh, confiado a ele por Jobs, para criar o Windows.
Mas talvez a maior analogia do filme seja encerrar e trazer justamente o momento em que a Microsoft comprou 40% das ações da Apple, em meados de 1997, salvando-a da péssima situação financeira em se encontrava, demonstrando que apesar de tudo, nesse mercado que envolveu a pirataria de idéias e conceitos, ela própria seja nada mais que uma forma de ajuda e cooperação.
E se hoje Steve Jobs é visto como um visionário, um artista, um vendedor e orador de primeira qualidade, uma pessoa obcecada pela imagem e que nunca lançou um produto que não passasse incansavelmente pelo seu crivo e egocêntrico método de análise de desenvolvimento e designer, isto se deve incontroversamente a Bill Gates e sua Microsoft, que com o princípio de popularizar os computadores pessoais independentemente de designer e qualidade, acabou servindo como exato contrapeso para a filosofia modernista por detrás dos belos equipamentos da Apple.
De fato, se os produtores tivessem decidido esperar apenas mais alguns anos para realizar o projeto, com o advento do iPod e do iPhone o longa iria precisar, com toda a certeza, de muitos mais contrapesos que a Microsoft, hoje apenas uma das grandes rivais da companhia fundada por Jobs. E isso apenas demonstra que em ternos de avança tecnológico, alguns anos podem representar a exata fronteira entre ser um estrategista visionário e ser um mito legítimo, um deus da Era Digital.
This review of Pirates of Silicon Valley (1999) was written by Cássio D on 06 Nov 2011.
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