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Review of by Alanpotter17 — 03 Jul 2023

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A Netflix tem se destacado nas animações bem mais do que em filmes considerados mais "adultos". Se ano passado tivemos produções como "Apollo 11 e 1/2" e "A fera do mar", novamente a produtora mantem a qualidade principalmente pelo roteiro.

Confesso que achei o visual apenas ok, está bonito em sua maior parte do tempo, com tonalidades eficientes (por exemplo, o reino bem clean, os flashbacks mais escurecidos, as cores e traços diferentes da Nimona), mas por vezes lembra cenas de videogames como os jogos do Zelda. Não chega a ser um demérito, já que Zelda é uma linda produção.

Mas seu maior destaque, além dos personagens principais muito bem construídos e a química entre eles, vai mesmo para o roteiro, incrivelmente bem trabalhado (apesar de alguns furos e concessões, como facilidade de acesso a certos lugares). Nimona é uma garota, mas também assume diversos corpos e seres, e acaba se aproximando do cavaleiro plebeu aspirante a entrar pra guarda real, que fora objeto de uma armação justamente no dia em que se apresentara à rainha. A cereja do bolo é que ele: [spoiler] assume um romance gay com outro guarda, mas dado os acontecimentos teve que fugir, então seu enamorado fica na encruzilhada entre caçar o seu amor ou confiar nele para enxergar que, na verdade, trata-se de uma vítima. [/spoiler] É um filme que envolve muitas camadas, desde questionarmos o poder das instituições a tradições ou de questionar a ascensão de um plebeu à corte. As camadas sociais e os estigmas impostos pela sociedade vão ditando as visões que aquele ambiente tem da corte e dos guardas, construindo narrativas distorcidas do real e muito próximas do que o capitalismo prega.

E, claro, o papel de Nimona no filme acaba também dialogando com essa espécie de "outsider", termo usado por Norbert Elias para dar conta de grupos excluídos socialmente, mas não apenas transformados em marginais, mas postos num local inferior para mover a engrenagem do sistema.

É justamente esse o ponto chave e mais interessante do filme, perceber que as narrativas que inferiorizam o outro são funcionais para manter o sistema em pé, ou seja, não é apenas excluir o outro, é inferiorizá-lo para ressaltar a estrutura social da elite. Veja, por exemplo, as falas da diretora que assumira o posto da rainha, sempre dotadas de um ar de superioridade que se antagoniza ao outro inferior, utilizando-se de certo pânico social contra a classe menos favorecida para manter seu status. Qualquer semelhança com o discurso fascista não é mera coincidência.

Aliás, quando o pensamento mais progressista chama a atenção para a diferença de classes ou de identidades, o que se quer mostrar é que essas diferenças são usadas pelos conservadores de modo a segregar pessoas, e o que se quer é justamente acabar com os preconceitos, que, afinal, isolam as pessoas. É tocante diversos momentos chaves do filme em que Nimona transparece a sua solidão e tristeza imposta por esse mundo de julgamentos. Logo, ao contrário da direita conservadora que fala que o discurso da diversidade separa as pessoas, é justamente ao contrário, o discurso pela diversidade tenta uní-las, pois a realidade das sociedades já cumpre esse papel de exclusão, as instituições, por motivos históricos e culturais, já criaram seus monstros e o puseram em caixinhas inferiores, como dito, os outsiders são funcionais para manter o sistema. A diversidade parte das diferenças para se chegar a uma sociedade mais justa, não é ficando cego à realidade e tratando todos de forma igual que resolveremos os problemas, pois essa realidade nos espanca todos os dias, ela própria cria a exclusão. Cabe superá-la.

Assim, o monstro figurativo de Nimona é o indivíduo que difere do padrão, liberando seu pior lado, vítima de uma sociedade segregadora. Todos nós temos potencial de sermos bons ou ruins, e de fato a sociedade assim nos julga, cria muralhas e discursos "fóbicos". É preciso romper as barreiras, e tentar enxergar no outro a sua melhor versão, visando um bem estar social. Tudo isso pode ser a mais pura ilusão, talvez estejamos caminhando muito devagar em algo que poderia ser mais simples: olhar as diferenças identitárias com ternura, pois o outro em nada interfere naquilo que eu sou, cada um tem o direito de ser feliz e ser quem é.

Um filmaço que merece ser visto à luz de suas mensagens libertadoras e críticas, com cenas de ação, de romance, de humor, mas principalmente, cenas com muito conteúdo reflexivo em um mundo onde, infelizmente, ainda persistem muitos julgamentos.

This review of Nimona (2023) was written by on 03 Jul 2023.

Nimona has generally received very positive reviews.

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