Cinafilm has over 5 million movie reviews and counting …
Sitemap
Search

Last updated: 07 Jun 2026 at 21:29 UTC

Back to movie details

Review of by Rafael G — 16 Dec 2017

Share
Tweet

Parte 1: O Criado.

Há uma frase que levo comigo sempre: "Não há assunto tão velho que não possa ser dito algo novo sobre ele" de Dostoiévski, junto de "A beleza salvará o mundo" do mesmo autor. Onde extraio delas o mais sublime sentido da esperança. A esperança de não inventar a roda, mas dirigi-la assim como eu desejar e de tal forma eu achar melhor. E é assim da mesma forma que percebo a direção de Darren Aronofsky e seu deleite com mãe! (em minúscula) qual cria uma obra-prima sem erro de exclamar isso para os sete mundos, e sem arrependimentos por cada palavra de elogio que colocarei aqui neste texto. Há uma fascinação pelo sofrimento e pela tristeza, beirando o insuportável, mas se até mesmo uma ostra precisa sofrer por um grão de areia para criar uma pérola, continuo afirmando: uma obra-prima!

Aliás, propriamente com o trabalho de uma ostra ao sofrer para criar a beleza, também me refiro ao artista que, assim como dezenas de escritores e pintores que cortaram suas orelhas e até mesmo morreram de cirrose, pelo sofrimento terreno, ainda assim criaram obras espetacular como A Noite Estralada e A Queda da Casa de Usher. Não me referindo ao Aronofsky, mas ao personagem interpretado por Javier Bardem "Ele", um escritor passando por um hiato criativo que trabalha em seu escritório arduamente para transpassar seus pensamos aos vários papeis que o mesmo rasura, porém, como empenhado em estabelecer esse vínculo com a escrita, sua mulher "Mãe", interpretada por Jennifer Lawerence, passa os seus dias sozinha em cômodos da casa recuperando as perdas do local, após o mesmo ser incendiado tempos atrás. Inclusive, sendo bastante notável seu desempenho com tal, reparamos já um belo aspecto vitoriano da mansão e de paredes prontas para receberem tinturas e, como ela mesma expressa, "Tornar aquilo como um paraíso". A mesma já também bastante acostumada com o local e a região na qual ambos moram, no meio do nada cercado por verdejantes árvores, Mãe não se importa em andar pela sua casa com vestimentas transparentes, pois não há olhos que a possam julgá-la para isso. Entretanto, a inesperada visita de um homem pedindo moradia para pesquisas na área chama a atenção de Mãe, e com razão, pois aquela entrada a dentro de seu recinto seria algo irreversível e aterrador. Algo que retiraria toda sua privacidade e dignidade.

Mas não contente, Aronofsky opta aqui por não abordar músicas em sua projeção, representando aquilo que - na segunda parte tocarei em mais detalhes - simplesmente representaria o puro e da natureza. Aquilo que não deve ser julgado e apenas apreciado. Algo que não é muito respeitado pelo novo inquilino, por exemplo, sem dar spoilers à trama, mas representa aquilo de mais desagradável a alguém que disponibiliza hospitalidade, como o ato de fumar sem que isso seja autorizado ali dentro. Por outro lado, Darren Aronofsky torna-se igualmente eficiente ao não abordar sua metáfora como algo preciso ao entendimento da trama. Que além disso ajudar ao desenvolvimento de tal, como única narrativa concisa, ainda temos o escopo de algo sendo construído minunciosamente sem que haja incoerência no mesmo (qual discutirei melhor também na segunda parte).

A alegoria grita nesta obra, mas não precisamos dela para gritarmos juntos. A própria frase de Dostoiévski no início não fora jogada ao léu como mero exemplo complacente ao da trama, pois desejo explicar que temos sim uma história muito familiar permeando os personagens que pouco se importam para o que mãe! seja original, e tão reflexivo quanto seus semelhantes. Percebam, por exemplo, que temos aqui o marido que pouco se importa com o bem-estar de sua esposa como relacionamento, semelhante ao casal de O Bebê de Rosemary. Mas ainda também temos em seu segundo ato a mesma categorização da violência não declarada assim como em O Anjo Exterminador. Porém, tampouco estes conseguem seguir de mãos dadas com mãe!, onde quando transmitindo seu real objetivo e ganância: algo refletido pelo personagem Ele, e o sentimento puro e sentindo-se corrompido pela personagem Mãe, o filme acaba por levar seu espectador por uma narrativa inquietante o bastante para que engaje o ritmo ao mesmo, mas juntamente alegorizando através da linguagem de suas alegorias e metáforas para enriquecer o já criado.

Isso pode-se dizer ao direcionamento da câmera de Aronofsky, criando o aspecto único de plano-subjetivo de Mãe sem que precisemos de seu ponto de vista a todo instante, mas ainda é colocado durante toda sua projeção o frequente plano-nuca (visto de suas costas), acompanhando a personagem com certa intensidade como se estivéssemos de fato sendo guiados por ela, assim como os vários close-up e primeiríssimos-planos (planos nos olhos) para, novamente, enfatizar que estamos seguindo o enredo pelo seu ponto-de-vista. No entanto, perceba que ao colocá-la assim como os outros personagem em planos-abertos e sem ponto fixo na personagem, a mesma sempre se encontra em meio de pilastras e retângulos que parecem tirar sua mobilidade e liberdade de ir e vir. Muito diferente de Ele, que sempre num tom mais seco e pouco informativo, sai quando bem entende de locais que sua esposa está, e some por minutos ou horas, transmitindo de tal forma que a câmera o mostra sempre ou de costas para a Mãe, ou em enquadramentos que focalizam perfeitamente sobre a expressão com falta de empatia de Javier Bardem por Jannifer Lawrence, onde, de tão brilhante nesse papel que pressentimos exatamente o sentimento de que se Ele for embora daquele local, certamente haverá falta de afeto logo após. Algo que Lawrence consegue expressar por suas reações pouco expressivas e catatônicas que confesso estranhar de inicio e supus que a mesma não havia achado sua voz por meio da personagem, como se ainda não estivesse realmente familiarizada com tal papel, porém, após analisar minunciosamente o que a mesma trouxe, vejo que é algo quase proposital por parte da direção de Aronofsky, pois Mãe é um ser puro e pouco acostumado, de certa forma, com pessoas vindas de fora, sempre precisando da ajuda do marido e de sua presença. E para que isso não soasse como machista, Aronofsky e seu brilhante roteiro realçam a relação de hierarquia do casal e suas obrigações com tais: exemplo com o sexo, onde mesmo que isso seja a única coisa que Ele consiga reconhecer como obrigação à sua esposa, ele o faz por bem-querer.

O que se difere do outro casal interpretado por Ed Harris e Michele Pfeiffer. Sim, o mesmo inquilino que antes chegara sozinho surpreende Mãe ao ser visitada em sua casa por uma mulher bonita e pouco formal, que adentra seus aposentos como alguém curioso por algo novo; algo que a faça permanecer ali por mais tempo do que o permitido. Assim, claro, Michele Pfeiffer - igualmente uma surpresa para mim já que a mesma estava fora das telonas fazem anos - aparecer aqui como alguém "desconhecido", porém, com embasamento para isso, fora uma das melhores escolhas que Aronofsky poderia formular. A atriz a cada cenário e plano em que se encontra ela rouba a cena. A sua presença é memorável junto de seu olhar que come pelas beiradas e o diretor de fotografia Mathew Libatique realça isso junto de suas lentes e do formato 16mm, que além de deixarem os rostos dos atores mais largos, fazem dos planos cada vez mais claustrofóbicos e pouco abertos, criando a inquietação não só pela narrativa com seguimentos ágeis e de uma montagem pulsativa, mas também de como ambos diretores atribuem os personagem em cada eixo do cenário: por isso perceba, por exemplo, quando o Homem e a Mulher se beijam na frente de Mãe e Ele, a câmera faz questão de demonstrar a reação do casal com a situação logo na frente da porta de entrada da casa onde tivemos o primeiro encontro (do espectador) com os protagonistas no início do longa.

Um filme angustiante, paranoico, perturbador e ironicamente engraçado. mãe! prefere por trazer seus personagem a um seguimento maior do que o mostrado às claras ao espectador, porém, mesmo este sendo o maior triunfo do filme, jamais que precisamos deste para sentirmos sua maior alegoria pela presença da esperança: de ter um filho, e deste seguir para a criação de um poema. A vida responde ao criador e vise-versa.

Parte 2: O Criador.

(Com spoiler).

"O Cinema é o modo mais direto de entrar em competição com Deus". A frase de Frederico Fellini soa quase como algo ofensivo. Ora, como alguém poderia competir com Deus (do cristianismo) apenas ao criar e dar "vida" àquilo que deseja? E por que somente o Cinema? A resposta é simples: O criador. O artista é um criador daquilo que o convém. E porque não apropriarmos desta certeza para refletir sobre a Arte de Deus? A partir do momento que na bíblia diz, ainda antes de sua escrita "A criação do céu e da terra e de tudo que neles se contém" percebemos de sua escolha em criar algo de sua autoria. O Paraíso é um exemplo prático disso. Sua tentativa de criar algo perfeito àquilo que o mesmo via como sua representação do Homem.

Assim também podemos estabelecer os signos de cada narrativa. No antigo testamento a representação de paraíso era uma metáfora àquilo de mais divino e estabelecido por Deus, assim como o universo que o mesmo criou. Em mãe! poderíamos representar o diamante que Ele mantém em seu escritório - onde todas as escrituras são criadas - como o universo que o mesmo mantém em suas mãos. Já a Casa/Mãe representariam aquilo que poderíamos exemplificar como a Terra, por isso também o paraíso do puro e intocável (e por essa razão não escutamos nenhuma trilha musical, pois a representatividade da Casa/Natureza já se bastam). De maneira idêntica ao que se refere por criar. Ele, o personagem, um poeta e por isso tem por sua redoma o dom de escrever o que vem de dentro, e até por isso que ele acaba criando suas perfeições e imperfeição nestas mesmas obras. Que no caso se assemelham ao que Deus cria com Adão: representado por Ed Harris (o Homem). Quando de fato este mesmo adentrando em sua absoluta criação de encontro com seu "criador", o Homem (Adão) estabelece suas imperfeições logo de relance, como o ato de fumar e a Mãe/Terra não autorizando tal ação. O que se torna o contrário para Ele, encantado com a nova visita (se lê: encantado com sua criação) percebe aquilo como algo genuíno e impressionante. Algo muito parecido com o que Ele falaria mais tarde para Mãe com "Abrir porta para novas pessoas. Novas ideias". Dessa forma nasce/torna-se o que representaria Eva. (Logo após ser mostrado o corte na costela de Harris/Adão e Bardem/Criador esconde de Mãe).

Como a serpente na bíblia, que nada mais é do que o pecado e a curiosidade. Um paraíso apenas para dois era muito tedioso (lembre-se: imperfeito), por isso Michele Pfeiffer alfineta frequentemente Jannifer Lawrence por não ter filhos, e por isso também alimenta sua fome em ir de encontro com o escritório, o lugar da criação, o lugar da maçã. E dessa forma, logo após quebrarem (lê-se: pecarem), ambos são mostrados já em seguimento transando, o que resultaria em seus filhos Abel e Caim. Mas ainda antes, logo que autorizado a entrada de ambos seres dentro de sua Casa, encontra-se na privada de seu banheiro um pedaço de carne pulsante que transmite sons finos, se assemelhando ao que poderia sobre uma doença, até mesmo um câncer. (O que poderia representar o real parasita que o Homem presenta à Mãe Natureza). Sob o mesmo ponto de vista com a traição dos irmãos, quando Brian Gleeson e Domhnall Gleeson (ambos irmãos também na vida real), cometem o primeiro homicídio de Caim matando Abel e Deus o marcando na cabeça, assim como quando Ele joga o corpo do filho de Homem contra um cômodo. O que deixa por marcado nesta mesma leitura sobre o assoalho da casa uma mancha de sangue impermeável que mais para o futuro estaria com um aspecto remetendo à uma vagina, representando a fertilização e o escarnecedor (destacando o ótimo trabalho de design de produção de Phillip Messina).

Mas não somente, assim como um bom artista que cria suas perfeição pelas suas derradeiras experiencias com a vida, Ele/Criador faz um discurso acolhedor e remanescente àquele momento de tristeza da primeira morte em seu matrimônio, não pelo seu bem-estar, mas para com os de seus indivíduos seguidores/fãs. (E repare que Ed Harris depois do discurso clama à Deus). O verdeiro escritor também nada mais é do que aquele que representa seus sofrimentos não como algo vitimizado, mas trazendo da melancolia para acolher os demais indivíduos que o tenham como princípio de eixo, ou seja, como reflexo daquilo que desejam buscar como algo único. Dessa forma, a representação de seguidores de Deus para com o de um escritor que toca (sentimentalmente) milhões de pessoas e disso tira proveito como o de ajudar, a leitura pode ser feita assim como a história bíblica: ou a de um homem em busca da verdade através das palavras e da resposta em troca.

Respostas essas que são distribuídas em diferentes formas. No terceiro ato somos apresentados perfeitamente ao que se refere às grandes guerras sofridas durantes os anos (e porque não sobre a guerra santa), mas também se refere ao que estes indivíduos interpretam das palavras de seu criador. Que lê-se da seguinte forma: Primeiro, poderiam ser o número absoluto de todas as possíveis interpretações que a humanidade pressente através das palavras da bíblia - e reparem que isso acontece logo após dEle escrever o seu novo poema, ou seja, o novo testamento; Segundo, a metáfora sobre aquela guerra infernal ocorrida sobre este ato representaria a apropriação do público com a criação do artista, e de como estas interpretam e devoram a mesma. Acarretando na mais perturbadora metáfora que Aronofsky traz ao seu término, sobre o bebê sendo devorado pelos seus seguidores, qual, ora poderiam representar a imagem de Jesus Cristo qual enquanto levado pelos braços de seu Pai e deixando nas mãos da humanidade e assim morto pelos mesmos, ora representado também como a devolução do público com a obra, uns amando e já outros apenas o devorando como adoração pelas más interpretações (vistas pelos olhos de um sacerdote que vê o filho do criador como pertencendo de sua crença/interpretação - o que poderiam ser o judaísmo/imprensa).

E quando terminada a chacina de sua representatividade, a Mãe Natureza expele toda a sua fúria como o que representaria o apocalipse (e do chão sendo rachado digitalmente como as placas tectônicas, ou de quando em contrações do parto a câmera fazendo da imagem tremer), para logo depois queimar todos ali presentes junto de sua Casa, e por isso apenas encontrando vivo, Ele, O Criador.

No entanto, por outro lado também remetendo ao que sobra de uma criação deturbada - assim como Nietzsche para Hitler - o poema e qualquer criação sofre sua derradeira duração por entre sua notoriedade, mas quando esquecida só restam as cinzas de sua lembrança, e por isso o escritor deve voltar para seus aposentos (o escritório/criadouro) e finalmente ter uma nova inspiração até que sua nova musa seja erradicada junta de sua cria, como um sofrimento do escrever e criar. Ou de como Dostoiévski indica "Aos olhos do artista o público é um mal necessário; é preciso vencê-lo, e nada mais".

Assim mãe! representa estas e muitas outras alegorias, qual tentarei destacar na terceira parte, logo após eu rever esta obra novamente, porém, já bastam para que eu confirme sua grandiosidade como uma beleza que salvará o mundo das aflições e dos criadores. É uma das obras mais puras sobre o sofrimento terreno durante todos os milhares de anos da humanidade, perante a religião e o Criador. Ou somente sobre alguns anos de sofrimento que um artista passa antes de tornar-se inspirado o bastante para criar, assim como uma ostra que trabalha sobre seu grão de areia (sofrimento) para criar uma pérola.

O que representaria também ao seu escopo absoluto, da.

This review of mother! (2017) was written by on 16 Dec 2017.

mother! has generally received positive reviews.

Was this review helpful?

Yes
No

More Reviews of mother!

More reviews of this movie

Reviews of Similar Movies

More Reviews

Share This Page

Share
Tweet

Popular Movies Right Now

Movies You Viewed Recently

Get social with CinafilmFollow us for reviews of the latest moviesCinafilm - TwitterCinafilm - PinterestCinafilm - RSS