Review of Love Streams (1984) by Miguel A — 13 Dec 2014
O que distingue John Cassavetes tem tudo a ver com a tremenda coragem que o realizador aplica na sua análise dos mais complexos sentimentos humanos (amor, afecto, a procura de estabilidade). Na s mais delicadas zonas do drama, onde tantos outros realizadores hesitaram (por vezes até para nos protegerem do desconforto que é vermo-nos a nós próprios), Cassavetes avançou recorrendo a quantidades semelhantes de atrevimento, sensibilidade e vontade de retratar as pessoas como seres frágeis e não como super-humanos (conforme acontece numa indústria que ele próprio abominava).
"Love Streams", derradeiro projecto de Cassavetes filmado com dinheiro da Cannon (?!), representa portanto o culminar de toda a experiência e sabedoria acumuladas por um autor que desde cedo se comprometeu com o cinema essencialmente focado na dimensão emocional das pessoas.
Escrito com base numa peça de teatro e condensado em 140 minutos, "Love Streams" dificilmente conseguiria um melhor sumário das principais marcas de Cassavetes: há o habitual passeio pela vida aos trambolhões por parte dos que não se adaptaram à rotina familiar, há ecos fortes de "Faces" (talvez o seu melhor filme), há a imagem das "escadas" como símbolo para a flutuação inevitável nas relações entre homem e mulher, pais e filhos.
Há também uma sequência de sonho que por si só coloca Gena Rowlands num panteão só dela. Assim que termina "Love Streams", e depois de todo o percurso Cassavetes que o antecedeu, a sensação é a de que mudámos.
E filmes que provocam esse tipo de mudança é coisa muito rara.
This review of Love Streams (1984) was written by Miguel A on 13 Dec 2014.
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