Review of Flight 93 (2006) by Carlos N — 11 May 2008
Comecemos por falar um pouco daquilo que `United 93`, do britânico Paul Greengrass, não é. Não é um elogio da capacidade de sofrimento e coragem do povo americano. Não é um drama lacrimoso enxertado convenientemente num acontecimento histórico, território virgem de ficção cinematográfica. Não é certamente um expoente de entertenimento, sério ou não.
Mas então o que sobra, o que é `United 93`?
Passado o período de `recato forçado`, de luto histórico, a cinematografia norte-americana, num movimento (que tem tanto de necessidade patriótica de um povo como de filão negocial, aliás estes andam irremediavelmente ligados) lançou-se na tarefa de pincelar os trágicos acontecimentos do 11 de Setembro. Lembramo-nos agora, num aparte pouco saudável, que uma cinematografia como a portuguesa é, neste aspecto, uma espécie de contra-ponto da norte-americana, caminhando sempre numa trajectória divergente (e não convergente) face aos acontecimentos que marcam a contemporaneidade do seu contexto social e político. Falamos claro em termos tendenciais.
`United 93`, enquanto primeira obra com enfoque no 11 de Setembro, é necessariamente pioneira, uma experiência de uma memória. É desse carácter experimental, justaposto ao traço quase documentarista de Greengrass, que podem ser extraídas muitas das linhas que enformam esta obra. A seriedade de um tema quente que justifica a ausência de grandes estrelas no cast; a falta de protagonistas salientes, quer de um lado quer de outro, numa valorização do anonimato e da corresponde ascensão do acontecimento em si; os planos em constante câmara à mão como sinal de uma tensão, mas também de uma desorientação de uma nação `que está em guerra com alguém`, são tudo disto exemplos.
Por isso, é fácil ver `United 93` como uma obra pouco cativante, como o traçar de uma conspiração subterrânea que atingiu um país no que tem de mais profundo, não se sabe bem como. Mas na verdade, é mais do que justo elogiar a coragem de Greengrass, por este murro no estômago que recusa dar ao mundo, o que todos (ou quase todos) dele esperavam. Pela audácia de não explorar o que já foi canibalizado por todos os meios de comunicação social do mundo (as imagens do embate dos aviões nas torres gémeas): entenda-se, o filme delas não prescinde mas não vive delas. Pelo virtuosismo de escolher sempre o caminho menos óbvio.
O filme de Greengrass não deixa de fazer justiça ao acontecimento em si. Mas fá-lo tecendo sempre a fragilidade de todos os intervenientes: dos terroristas, tão convictos quanto receosos, dos americanos em terra (em magnifícos planos cortados das costas, das bocas, das testas) que falam, falam muito, desnorteados sem saber muito bem como lidar com tudo aquilo, e finalmente dos americanos no ar, em jeito de micro comunidade em genuína luta pela sobrevivência. Como se fosse todo o mundo a ser posto à prova com, as acções à frente das suas consequências.
Não deixa de ser curioso, de uma ironia deliciosa que, no final, após um terceiro acto (será que podemos chamar-lhe isso?) nervoso, o ecrã volte ao negro e a dedicatória seja feita a TODOS quantos perderam a vida no dia dos trágicos acontecimentos. E de um propagandismo que nunca se faz notar, rapidamente se passa àquilo que `United 93` mostra com firmeza: nunca mais ninguém vai entrar num avião da mesma maneira após o 11 de Setembro.
This review of Flight 93 (2006) was written by Carlos N on 11 May 2008.
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