Review of Cremaster 3 (2002) by Carlos N — 11 May 2008
Matthew Barney é um artista conceptual que desde cedo se sentiu atraído pela limitação do corpo humano e a forma que encontramos para a transcender. A transposição dessa realidade fá-la na realização, nas instalações de vídeo, na escultura, ilustrações e fotografia. O seu trabalho evolui desde a confrontação do próprio corpo com objectos construídos por ele em performances de superação de obstáculos, com a introdução de criaturas fantásticas. Em 1994, Barney começou a trabalhar no seu `épico` surrealista, `Cremaster`, um projecto dividido em cinco filmes (que vão desde os 40 minutos de duração às 3 horas), acompanhados de esculturas, ilustrações e fotografias. As diferentes partes do ciclo (cuja ordem numérica não corresponde à ordem cronológica) foram finalmente completadas em 2002, com `Cremaster 3`, (após 9 anos de rodagem dos diferentes segmentos) e o ciclo teve apresentação no Guggenheim Museum. O que é definido por Barney como uma série de `esculturas fílmicas` acaba por ser uma sucessão de filmes cujo tema é uno: a diferenciação sexual intra uterina que se produz a nível celular nas primeiras seis semanas de gestação (Barney estudou medicina). O ciclo acompanha desde o processo de `ascendência` biológica em `Cremaster 1` até à saída, ou `descendência final` e diferenciação total do embrião em `Cremaster 5`, passando pala maturação e diferenciação fisiológica e sexual.
Numa fusão ímpar de cinema e arte contemporânea e num universo de conteúdo próximo da instalação de vídeo e performance, Barney acaba também por reflectir também sobre alguns episódios da história norte-americana recente, mitos célticos, rituais maçónicos, o mundo da arquitectura, a fusão ou cumplicidade homem, animal, máquina e a ténue linha de separação dos géneros masculino/feminino.
`Cremaster` que dá título à série de cinco filmes/performance, é o nome de um músculo que envolve os testículos, protegendo-os e também responsável pelos seus movimentos. Esta acaba por ser mais uma pista (que aponta, discutivelmente no sentido da virilidade masculina) de uma obra que concentra em si, ao longo dos seus segmentos, várias narrativas subterrâneas, que se ligam entre si, formando uma unidade ambígua de sentido e que exigem do espectador que escave além da superfície sensorial e que tente penetrar na lógica difusa dos mesmos (o que adverte-se desde já não é fácil). A existirem comparações possíveis com este objecto singular só poderá ser `Crash` de David Cronenberg em dias de maior desordenação, Lynch nos inícios de carreira ou o velhinho e percursor do surrealismo fílmico `Un Chien Andalou` de Bunuel.
Visualmente liberta uma imagética que apela constantemente aos símbolos (cada segmento possuí uma insígnia própria, por exemplo) e a uma estética no domínio ora do grotesco ora do deslumbrante onde cada plano encerra em si uma dimensão quase biológica da arte.
CREMASTER 3.
No que considero o mais pungente elemento do ciclo (e último a ser elaborado cronologicamente), está em confronto o arquitecto do Chrysler Building e um trabalhador na construção do edifício, ` the Entered Apprentice`. O próprio edifício em plena Nova Iorque desempenha em toda a sua dimensão um papel fulcral, espaço onde as personagens reagem fisiologicamente como órgãos do corpo humano. É um episódio cuja temática envolve mitos célticos, rituais maçónicos e uma analogia com a construção do templo das minas de Salomão, num ambiente que alterna o filme de gangsters com a slapstick comedy. Sendo o segmento de charneira é o que faz o ponto de ligação com os dois anteriores e as dois seguintes.
This review of Cremaster 3 (2002) was written by Carlos N on 11 May 2008.
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