Review of Blade Runner (1982) by Lucas H — 30 Mar 2018
Desde a sua estreia nos cinemas em 1982, Blade Runner estimulou as mentes de miúdos e graúdos com o seu cenário futurista e ambiente inspirado no género film-noir. A versão definitiva chegou em 2007, com pequenas mas importantes alterações, onde o diretor Ridley Scott apimentou o enredo de modo a tornar a experiência mais provocadora, imersa nas suas próprias questões. Baseado no livro de Philip K. Dick's de 1968: Do Androids Dream of Electric Sheep?, o filme adquiriu ao longo do tempo um estatuto de objeto de estudo para todo e qualquer filme de ficção científica, sendo o filme que mais influenciou o género desde o histórico Metropolis (1927).
Los Angeles, 2019. Num futuro que agora não parece assim tão distante, um detetive chamado Deckard (Harrison Ford) é chamado ao serviço para caçar andróides - que neste filme denominam-se replicas - que escaparam das suas prisões numa colónia espacial, com o propósito de se misturarem com os terrestres e encontrarem o seu criador. Uma premissa simples para um filme tão rico em termos temáticos e filosóficos, que conferiu intimidade a uma história onde a população está praticamente desprovida de ligações sociais.
É um dos primeiros filmes de ficção científica a suceder na criação de um mundo particular, cuja vivacidade é inquestionável e a sua execução perfecionista. O que de imediato salta à vista em Blade Runner é a minuciosa atenção a todo o detalhe que é apresentado na imagem. O próprio Ridley Scott disse numa entrevista ao New York Times que nunca prestou tanta atenção a um filme, porque os filmes que nos prendem a atenção e que tendemos a revisitar, são aqueles cujo mundo criado é de tal forma credível, que somos automaticamente transportados para dentro dele.
O mundo de Blade Runner é distópico, perpetuamente escuro e ensupado, onde os ricos vivem imensamente acima dos pobres nos seus prédios terrificamente altos que impediriam a passagem dos raios solares, se a poluição e a quase constante chuva não o estivessem já a bloquear. Apresenta uma paisagem urbana com exagerados cartazes luminosos no cimo dos prédios que incitam uma sociedade baseado no consumismo, enquanto que os níveis inferiores são um testamento de degradação, imundice e crime.
Uma produção de luxo que exige um ecrã à medida e uma tecnologia de som capaz de fazer jus à sublime composição musical de Vangelis, que se funde com o design de som e com o diálogo do filme. Não é tão amelódico como a composição de Forbidden Planet (1956) nem tão sinfónico como sentimos em, por exemplo, Star Wars (1977). Cada som é propositadamente integrado para garantir uma experiência sonora completa, que não só complementa a imagem como todo o ambiente envolvente.
A acompanhar a produção temos atuações que são uniformes na sua qualidade, com especial destaque para Harrison Ford, que interpreta brilhantemente esta personagem-tipo noir, confiante, e com um olhar dúbio na sua expressão constantemente séria. É o melhor no seu trabalho e interliga bem as pistas que encontra, mas, em última instância ,está onde o enredo pede para ele estar, sendo assim um protagonista parte passivo, parte ativo. Também Rachel (Sean Young) tem uma importante participação no argumento elaborado por Hampton Fancher e David Peoples, aprofundando a questão central do filme (uma velhinha interrogação da ficção científica), que é: O que é que significa ser humano?
Ridley Scott é um diretor que não faz planos pela metade. A sua filmografia está repleta de grandes êxitos como o claustrofóbico Alien (1979), o épico Gladiator (2000) e o excelente Kingdom of Heaven (2005). Mas também tem a sua quota de filmes medianos, como o conto de fadas Legend (1985) ou o thriller Someone to Watch Over Me (1987). Blade Runner pertence à sua alta hierarquia de filmes que foram realizados com uma mestria e ambição tal, que hoje em dia lhes chamamos, apropriadamente, clássicos. Um filme que se debruça sobre o superficial e artificial, pensamentos e sentimentos pré-elaborados, mas que acaba, ironicamente, com o mais nobre gesto humano, fazendo-nos questionar e debater a matéria em questão, que nunca foi tão relevante como nos dias de hoje.
9,3/10.
This review of Blade Runner (1982) was written by Lucas H on 30 Mar 2018.
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