Review of Barbie (2023) by Alanpotter17 — 31 Jul 2023
Sem dúvidas o grande mérito de "Barbie" é ser um espetáculo visual. Os cenários da Barbielândia têm uma riqueza de detalhes dos brinquedos a que se refere que chega a ser impressionante estar num nível acima, por exemplo, do Mario Bros, ainda que este tenha sido uma animação. E para melhorar, o cenário tem a pegada visceral, ao estilo "Dogvile" mas muito mais natural, sem as interpretações robóticas e limitantes.
Por falar nisso, as interpretações estão bem à altura, especialmente da dupla principal e da Barbie estranha. O vilão achei um tanto quanto caricato, e é com ele que o texto não ajuda muito, mas Margot Robbie e Ryan Gosling estão perfeitos para o papel.
Lotada de referências do início ao fim, com um pé na reflexão feminista e na crítica direta aos modelos do patriarcado, embora o filme peque pelo excesso de didatismo e pelo que há de mais nocivo no comportamento dualista visto nas redes sociais, que privilegia o conflito ao diálogo, o final do filme ao menos tenta equilibrar o discurso.
Mas o fato é que há uma série de gags inteligentes, não apenas pelo diálogo falado, mas as próprias cenas mesmo, enquanto cinema Barbie é um grande espetáculo. Gostei muito da cena do Ken descobrindo-se "homem" no mundo real, como Greta conseguiu passar a sensação do triunfo do patriarcado com cenas reais, numa edição simples mas eficiente. É o que eu esperava ver de Hiroshima e Nagasaki no Oppenheimer de Nolan, mas que o diretor ignorou.
As soluções para ir de um mundo a outro ficaram divertidas, mágicas, mostrando que não é a pegada realista que faz do filme um grande acontecimento, ao contrário, a "Barbie" sabe do seu potencial para além da verossimilhança, ou melhor, o discurso que levanta sobre a reprodução perversa dos estereótipos femininos é mais do que suficiente para levarmos vários socos no estômago.
Inclusive eu, como homem, me vi várias vezes em algumas cenas que retratam o Ken em seu comportamento tóxico, o que serviu de uma bela lição. Imagino que muitos homens, que se dizem inclusive desconstruídos puderam ter alguma noção do quão necessário ainda se faz um discurso feminista, especialmente em tempos de hipervalorização da imagem e do comum, sem contar a força capitalista por tornar tudo um produto.
Assim, as melhores tiradas do filme sem dúvidas são as que põe a própria Mattel na roda, com pitadas de autocrítica, mesmo sabendo que, paradoxalmente, é um filme complacente ao marketing da empresa. Não à toa há um destaque aqui para a criadora da boneca, e a forma como tenta terminar o filme, negociando a sua criação como algo que, definitivamente, pode tentar conviver com o caos do mundo real, sem necessariamente contribuir para o estigma. Inocência ou mais uma jogada de marketing?
O fato é que Barbie deixa bem clara as contradições do capitalismo, dos gênros, dos discursos. Não busca a solução perfeita. Não há Barbie perfeita. Tudo são construções ideais, e estão a nível de ideias e representações do real, nunca são o real de fato. Pelo fato de ter consciência de que há um mundo real cheio de preconceitos e desafios a se vencer, o filme cresce à medida que seu nível de reflexão vai colocando a si próprio no discurso. Logo, não é um filme que se aparta de tecer críticas a si mesmo, por amis que, obviamente, tente limpar a sua barra, mas ao menos é corajoso e bom o suficiente para entregar diálogos e situações interessantes. Um roteiro que tinha tudo para derrapar, mas consegue manter a excelência e, principalmente, conversar com o grande público.
Muito justo o reconhecimento do público refletido nas bilheterias. Embora definitivamente não seja um filme para criança, é um filme necessário para a família, com elementos que certamente podem ensejar uma série de discussões interessantes.
This review of Barbie (2023) was written by Alanpotter17 on 31 Jul 2023.
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