Cinafilm has over 5 million movie reviews and counting …
Sitemap
Search

Last updated: 13 Jun 2026 at 00:14 UTC

Back to movie details

Review of by Guylherme L — 02 Oct 2017

Share
Tweet

O Halloween sempre foi algo mágico pra mim. O fato de, no estrangeiro, crianças se prepararem o mês todo para sair fantasiados como seus maiores medos apenas para se divertirem e acabarem com uns potes cheios de doce no final sempre me deixou empolgado, embora eu nunca tenha gostado muito de doce. Aqui no Brasil, o Dia das Bruxas nunca colou, assim como diversos outros eventos topzeras como o Dia da Marmota e o IDH alto. Temos contrapartes interessantes, como o Dia de São Cosme e Damião e o próprio Carnaval, mesmo que a contraparte mais direta seja o Dia do Saci que, bem, não é tão divulgado já que nossos próprios conterrâneos não dão valor ao folclore nacional. Mas agora, uma reflexão: o que acontece após os doces e a inocência infantil? Do quê os adultos se vestem no Dia das Bruxas?

A Ghost Story (2017), de David Lowery, é um filme que, embora não tenha essa premissa de Halloween ou algo do tipo, serve bem para ilustrar os medos angustiantes de pessoas que já perderam toda a sua inocência. Embora pareça engraçado que o Fantasma do título (interpretado pelo controverso Casey Affleck) esteja vestido literalmente como um fantasma de Dia das Bruxas, daqueles que se cobrem com um lençolzão e buraquinho nos olhos, a trama do filme trata de assuntos muito mais sérios e profundos, como a depressão, a solidão e a vida da Morte. Bate uma deprê só de lembrar.

No filme, temos três personagens centrais que tomarei como referentes. Ambos os personagens não possuem um nome, há poucos diálogos e não me recordo de nenhum apelido para os três, então vamos criar nossos próprios apelidos. O primeiro personagem, o Fantasma, tem um relacionamento complicado com a sua esposa, a Viúva (interpretada brilhantemente por Rooney Mara, de maravilhosa). Ele é apegado ao local onde eles moram e ela é acostumada a mudanças, tendo morado em diversas casas quando criança. Depois de uma noite de decisão, o Fantasma decide aceitar a proposta e se mudar com sua esposa, porém, no dia seguinte, por ironia do destino o Fantasma acaba em um acidente de carro, causando então a sua morte. No necrotério, após a sua identificação pela sua esposa, o Fantasma acorda em sua pós-morte (levantando de sua maca no necrotério, onde ele estava coberto por um lençol) e é instintivamente puxado de volta para a sua casa, a qual era tão apegado quando vivo. Daí em diante, somos apresentados a uma intensa e silenciosa história de vida, tanto da casa quanto do morto.

Lembram que eu disse sobre três personagens? Dois já foram, falta um. Na casa vizinha, há um misterioso ser, morto também, coberto pelo que parece uma grande toalha de mesa. Ele é visto poucas vezes durante o filme, mas sempre aparece se comunicando com o Fantasma central e se questionando sobre o seu passado, como se esperasse alguém. O segundo fantasma é tido como um reflexo exato do primeiro, evidenciando alguns traços que haviam ficado subentendido. O fato dele sempre estar esperando alguém mostra como os fantasmas não estão totalmente cientes sobre a sua vida quando vivos, e ao decorrer do filme percebemos a não-linearidade do tempo para eles, podendo este segundo fantasma estar ali há tanto tempo que passou quase uma eternidade esperando a volta de quem nunca mais voltou.

A película (eu falo película quando o filme é mais artístico, pseudocult intensifies) de David Lowery é de um visual incrível. A paleta de cores frias, cruas, pálida, traz ao espectador uma sensação angustiante de solidão, trazendo empatia para personagens que mal se falam o filme todo. Pode contar, são quase 50 minutos sem diálogos longos, sempre conversas soltas ou simples demais, como se não importassem tanto ao filme. Geralmente, diálogos soltos são ruins quando feitos sem propósitos, mas felizmente Lowery é muito conciso em suas escolhas. É como se a falta de diálogos contribuísse para o contexto de solidão e angústia do filme, como se todo o filme estivesse morto. Não preciso dizer o porquê isso faz todo o sentido, não é?

Ao decorrer do filme, somos puxados diretamente para dentro da perspectiva da Morte. O Fantasma, confuso, vê sua Viúva entrar em uma depressão profunda, mas que aos poucos consegue se reerguer e seguir em frente, fazendo o quê a muito tempo já queria fazer: se mudar. É nesse período do filme que percebemos que, embora incapaz de se comunicar com a sua amada, ele ainda tem sentimentos por ela ao ficar full pistola quando ela aparece com outro homem na porta de sua casa e quando ele tenta desesperadamente rachar a parede pra conseguir ler o bilhetinho deixado por ela (imagina no bilhete estar escrito: The Game kkkkkkk rindo de nervoso).

Sempre com os holofotes voltados para a emoção dos personagens, A Ghost Story revela muito sobre como pode ser a perda de alguém pela perspectiva da própria Morte. Os personagens, ao não possuírem nome, expressam a idéia de que aquilo pode acontecer com qualquer um, com qualquer casal ou família. Há outros fantasmas por aí, como o próprio fantasma Toalha de Mesa. Todos estes vagam sem rumo, catatônicos, numa vibe quase depressiva sem um real propósito explícito no filme. Por exemplo, após incontáveis anos apenas observando a casa pela qual era tão apegado, o Fantasma é levado do meio ao final e do final ao início da casa, indicando a ausência total da lógica do tempo para a Morte. O Fantasma viu desde a família latina que ele assombrou à demolição da casa que era tida como mal assombrada, e então voltou aos primórdios do local com a família de religiosos. Foi preciso passar por toda a sua perda novamente, afinal, ele também perdeu a Viúva, para conseguir pegar o seu bilhete e enfim se sentir completo. O outro fantasma? Não explicam o seu propósito, mas eles estão mortos, eles realmente precisam de um propósito?

A Ghost Story é uma belíssima história sobre a Morte e como ela enxerga as coisas. Desde a sua própria perda até o silêncio assustador é notável o sofrimento de ambas as partes, sentimento ainda mais crível por conta da instigante atuação de Rooney Mara e de Casey Affleck que, mesmo embaixo de um lençol basicamente o filme inteiro, consegue se expressar de forma solene e empática. De fato, os monstros do mundo adulto são muito mais abstratos e aterrorizantes que fantasmas que só querem umas luzes pra piscar.

This review of A Ghost Story (2017) was written by on 02 Oct 2017.

A Ghost Story has generally received positive reviews.

Was this review helpful?

Yes
No

More Reviews of A Ghost Story

More reviews of this movie

Reviews of Similar Movies

More Reviews

Share This Page

Share
Tweet

Popular Movies Right Now

Movies You Viewed Recently

Get social with CinafilmFollow us for reviews of the latest moviesCinafilm - TwitterCinafilm - PinterestCinafilm - RSS